O Dia Internacional do Gamer é celebrado nesta sexta-feira (29). É uma data que reflete a força que a cultura de jogos on-line ganhou nos últimos anos. Segundo a Pesquisa Game Brasil de 2025, 82,8% dos brasileiros afirmam consumir jogos digitais. Desse total, as mulheres representam 53,2% do público. Apesar de serem maioria, os desafios para conquistar representatividade ainda são grandes.
Lu Leone entrou no mundo dos games através da família. Aos cinco anos, jogava no Atari junto com sua tia e mais tarde ganhou um Super Nintendo – que guarda até hoje. O que parecia apenas diversão na infância, se transformou em paixão e profissão a partir dos anos 2000. Hoje, a mineira radicada na Paraíba produz conteúdos para mais de 40 mil seguidores nas redes sociais do “Cadê Meu Chapéu”, com lives, matérias e vídeos.

Mas, estar fazendo o que ama, não significa que Lu seja bem aceita no espaço que ocupa. O fato de ser mulher é um obstáculo que ela enfrenta no mundo gamer, que ainda é majoritariamente masculino.
Ser mulher talvez seja o meu maior desafio como criadora de conteúdo, e olha que eu sou uma pessoa autista. O mundo gamer ainda é muito machista. Há jogos específicos, por exemplo, o LoL e o Valorant, que são extremamente machistas. O Valorant, por exemplo, eu já participei de campeonato, você abre o voice chat e a galera começa: ‘Ah, é mulher, vai lavar louça e tal’. Não é o jogo que é misógino, mas a comunidade costuma ser muito preconceituosa. Eu já passei por várias situações de me ameaçarem de coisas horrorosas. Existem outros desafios como não ser chamada para um certo trabalho ou para uma certa competição por você ser mulher, não digo que é muito frequente, mas já aconteceu comigo também
A jornalista e pesquisadora Ângela Duarte se dedica aos games nas telas e na vida acadêmica. Para ela, os atos machistas que acontecem no universo dos jogos é uma reprodução do que é a sociedade.
Assim como qualquer coisa que é criada pelo ser humano, os jogos vão refletir como a sociedade enxerga o mundo. Então, se a gente vive nessa uma sociedade que é machista, que ainda coloca as mulheres muito em um local de submissão, dentro da esfera dos jogos, dentro da comunidade do gamer, isso também vai acontecer. Então, além de todos os desafios de querer viver enquanto criador de conteúdo, enquanto streamer, você ainda tem um bloco a mais de dificuldade que é o de ser mulher. Há comentários que sexualizam, comentários que diminuem a sua capacidade, que não dá a sua capacidade de ser boa no jogo, por exemplo. Tudo isso é uma coisa que toda mulher que joga videogame, se não passou, ainda vai passar, infelizmente.
A pressão de estar em espaços predominantemente masculinos em que elas não são bem vistas, fazem com que as mulheres busquem formas de ficar invisíveis, para seguirem sendo maioria no mundo gamer, como explica Ângela Duarte.
“A Pesquisa Game Brasi mostra que a maioria, mais de 50% dos jogadores de videogame no Brasil são mulheres. Mas a gente não vê esse dado acontecer na prática. E por que é que isso acontece? Porque as mulheres, elas não se expõem tanto. Elas não usam um username feminino, elas não usam personagens femininas, elas não entram em chat de voz. A partir do momento em que você mostra que você é mulher, cria-se toda uma pressão maior. Se você está no jogo e acontece alguma coisa que o seu time perde, a mulher vai ser geralmente culpada. Se você está criando conteúdo que vai falar do jogo, vai ter muito comentário de gente descreditando você, duvidando da informação que você está trazendo, como se as mulheres não fossem capazes de serem boas nessa área”, disse a jornalista.

Na Paraíba, o cenário de mulheres gamers ou streamers ainda é bem restrito, não pela falta de interesse, mas pela ausência de espaço para elas.
“O universo gamer ainda é muito nichado aqui na Paraíba, mas quando você entra nesse universo você percebe que tem muita mulher que cria conteúdo. A gente tem, inclusive jornalistas, eu faço conteúdo de gamer na rádio que trabalho. A Gi Ismael é o quem começou a pavimentar isso, temos também streamers com alcance nacional, como a Lu Leone, do Cadê meu chapéu, e a Maíra. Temos inclusive um projeto de inclusão de mulheres nacional que começou aqui na Paraíba, que é o projeto JCG – Jogue Como a Garota. Então, representatividade tem, o que não tem é espaço”.
Se o universo gamer ainda não muito acolhedor para a presença feminina, a luta das mulheres para ocupar esse espaço fortalece ainda mais representatividade e serve de inspiração para jovens meninas que querem criar conteúdo na área.
“Hoje, eu vejo mais streamers mulheres e mais times do competitivo de mulheres. Eu vejo, tanto em eventos no Nordeste quanto em nacionais, muitas mulheres movimentando a economia e o cenário competitivo e tudo isso tem sido sensacional. Eu acho que quando você começa a ver uma mulher ali que faz aquilo, você percebe que você também consegue fazer e isso vai estimulando mais mulheres. Várias meninas que são novas que falam que querem fazer live por eu estar fazendo. Ter esses exemplos hoje é genial e eu acho que isso só vai estimular cada vez mais a mais mulheres entrarem e trabalharem nesse mundo tanto dos jogos quanto no mundo de live”, ressaltou Lu Leone.
Por outro lado, para tornar o mundo gamer mais acolhedor e representativo, é preciso de ações que ultrapassem o mundo das telas e dos jogos. A boa notícia é que alguns movimentos impulsionaram as empresas a adotar medidas contra a misoginia.
“Depois que tiveram casos como o movimento Me Too e o movimento Gamergate, as empresas começaram a prestar mais atenção nessa questão do machismo e da violência sexual que podem acontecer principalmente nos jogos online. Eles estão colocando punições mais restritivas, estão fazendo campanhas. Eu acho que o segredo é isso, como eu falei anteriormente, não dá pra tornar uma comunidade gamer mais acolhedora se a comunidade em geral não é acolhedora. Temos que combater o problema da raiz, educando os meninos já crianças, não colocando eles em contato com conteúdos sexistas, não colocando eles em contato com esse ambiente tóxico porque senão eles vão reproduzir e vai ser mais uma geração de gamers machistas. Para mim, principalmente, a comunidade gamer só se torna mais acolhedora quando o ambiente em que o gamer está inserido se torna mais acolhedor. Então, temos que ir combater o mal pela raiz, não é só no jogo, é na sociedade”, concluiu Ângela Duarte.