Jornalista versátil e apaixonado por esportes. Nascido e criado na capital paraibana.

Há derrotas que terminam no apito final. Outras acompanham o torcedor até em casa, atravessam a semana e fazem a próxima temporada começar sob desconfiança.
O Botafogo-PB parece disposto a deixar as duas.
O acesso não veio. Com três derrotas e dois empates no quadrangular, o Belo chega ao último compromisso sem possibilidade de subir. Mais uma vez, a esperança de sair da Série C ficou pelo caminho.
Mas o que incomoda agora vai além da tabela.
Depois da cobrança dos jogadores, Fillipe Félix prometeu quitar os salários até sexta-feira, véspera da partida. Uma promessa que precisa ser tratada como promessa, até que o pagamento seja confirmado. Pagar quem trabalha é obrigação.
Enquanto isso, Luiz Daniel foi dispensado e Yan Souto teve as férias antecipadas. O goleiro deixa o clube; o zagueiro tem contrato para 2027. São situações diferentes, mas que reforçam a impressão de um encerramento iniciado antes do último apito.
Ainda existe uma partida. Ainda existe uma camisa. Ainda existe uma torcida esperando alguma resposta.
E foi justamente dessa torcida que tentaram afastar a despedida.
Botafogo-PB e Santa Cruz solicitaram que o confronto saísse do Almeidão e fosse disputado no Lacerdão, em Caruaru. A CBF negou. O jogo permanece em João Pessoa, neste sábado, com presença apenas dos torcedores do Belo.
A mudança não aconteceu. Mas a tentativa aconteceu.
E, para mim, ela diz muito.
Na hora em que deveria encarar sua gente, explicar o fracasso e terminar a temporada diante de quem sustentou a esperança, a gestão tentou levar o time para longe.
É uma covardia sem tamanho com a torcida.
O torcedor já perdeu o acesso. Teria de perder também o direito de acompanhar, na sua cidade, a última partida do ano?
Quem esteve por perto durante a caminhada merece ser respeitado quando o caminho termina mal. Merece ver o time, cobrar, lamentar e até escolher ficar em casa. Essa decisão pertence a ele.
Pelas atitudes, fica a sensação de que o Belo não quer estar perto do povo justamente quando o povo mais precisa de explicações.
E isso dói.
Porque o Botafogo-PB tem uma ligação com João Pessoa que nenhuma mudança administrativa pode tratar como detalhe. Há famílias que organizam a vida em torno desse escudo. Há gente que atravessa temporadas de frustração e retorna ao estádio com a disposição de acreditar de novo.
Cobrança faz parte dessa relação. Violência, jamais. Mas o descontentamento legítimo da arquibancada precisa ser ouvido. Uma gestão que quer construir confiança deve começar pela disposição de enfrentar as perguntas difíceis.
O que deu errado?
Quem responde pelas escolhas?
Que garantias existem de que o próximo ano será diferente?
2027 já aparece no horizonte. E a torcida continua sem saber com que segurança pode olhar para ele.
O encerramento de 2026 deveria oferecer alguma base para o futuro. Hoje, oferece inquietação. Falar em recomeço exige resolver as pendências do presente, assumir responsabilidades e reconstruir a relação com quem continua ali.
O torcedor conhece o ritual: termina um campeonato, chegam outros nomes, renova-se a promessa e nasce outra expectativa de acesso.
Desta vez, porém, será preciso mais do que expectativa.
Será preciso merecer novamente a confiança.
O último jogo vai passar. A temporada também. Mas o sentimento de abandono pode permanecer por muito mais tempo.
E fica a pergunta, antes mesmo de a bola rolar em 2027:
Que Belo vai voltar — e quanto dele ainda estará perto da sua gente?
