Jornalista versátil e apaixonado por esportes. Nascido e criado na capital paraibana.
No fim de semana, as arquibancadas do Brasileirão viraram palco de um debate que já deveria estar superado. Influenciadores pernambucanos, numa infelicidade que surpreende — e que ecoou muito mal — levantaram a tese de que a maioria da torcida do Flamengo presente ao jogo contra o Sport, no Recife, seria “de paraibanos”. Um comparativo que, além de preconceituoso, ignora a realidade e falta com respeito com torcedores de outros estados que estavam no estádio apenas para fazer o que todo apaixonado pelo futebol faz: torcer.
É claro que Pernambuco respira seus três gigantes — Sport, Santa Cruz e Náutico. A paixão local é legítima, histórica e numerosa. Pesquisas mostram isso: segundo a Pluri Consultoria, 60,4% dos pernambucanos torcem por um dos clubes do estado. Outros levantamentos reforçam esse peso. O “trio de ferro” aparece bem colocado em estudos como o DNA Torcedor: Náutico com 73%, Sport 70%, Santa Cruz 65%. Uma força que precisa ser celebrada.
Mas daí a afirmar que todo torcedor que lota arquibancada de um time de fora é “importado” — ou que pernambucano só torce para clube local — é atravessar a linha. A própria estatística desmonta essa narrativa: estados igualmente tradicionais, como Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, também apresentam altíssima predominância de torcidas locais.
E na Bahia, por exemplo, o cenário é o inverso: mais de 60% torcem para clubes de outros estados.

A verdade é que o fenômeno da torcida “mista” existe — e não é exclusividade de ninguém. Muita gente tem um time da terra no coração e outro de projeção nacional como simpatia. Em Pernambuco isso até é menos acentuado do que em algumas regiões com futebol local menos desenvolvido. Mas negar que existe? Aí já é exagero.
E tem mais: quem foi ao estádio, seja pernambucano, paraibano, potiguar ou carioca, merece respeito. Torcedor não tem CEP obrigatório. Tem camisa, paixão e vontade de empurrar o time.
O futebol ensina dentro de campo — e fora também. Se alguém quer ser unanimidade, não é apontando o dedo. É jogando bola, conquistando, provando em cada partida. A arquibancada responde ao que vê. O gramado, esse sim, é o território onde os discursos se desfazem, e só a verdade fica de pé.
