Amauri Aquino
Pelos Gramados da Paraíba

Jornalista versátil e apaixonado por esportes. Nascido e criado na capital paraibana.

Deram cartão vermelho para o bom senso: Quando falta argumento, sobra geografia…
19 de novembro de 2025

No fim de semana, as arquibancadas do Brasileirão viraram palco de um debate que já deveria estar superado. Influenciadores pernambucanos, numa infelicidade que surpreende — e que ecoou muito mal — levantaram a tese de que a maioria da torcida do Flamengo presente ao jogo contra o Sport, no Recife, seria “de paraibanos”. Um comparativo que, além de preconceituoso, ignora a realidade e falta com respeito com torcedores de outros estados que estavam no estádio apenas para fazer o que todo apaixonado pelo futebol faz: torcer.

É claro que Pernambuco respira seus três gigantes — Sport, Santa Cruz e Náutico. A paixão local é legítima, histórica e numerosa. Pesquisas mostram isso: segundo a Pluri Consultoria, 60,4% dos pernambucanos torcem por um dos clubes do estado. Outros levantamentos reforçam esse peso. O “trio de ferro” aparece bem colocado em estudos como o DNA Torcedor: Náutico com 73%, Sport 70%, Santa Cruz 65%. Uma força que precisa ser celebrada.

Mas daí a afirmar que todo torcedor que lota arquibancada de um time de fora é “importado” — ou que pernambucano só torce para clube local — é atravessar a linha. A própria estatística desmonta essa narrativa: estados igualmente tradicionais, como Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, também apresentam altíssima predominância de torcidas locais.

E na Bahia, por exemplo, o cenário é o inverso: mais de 60% torcem para clubes de outros estados.

Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

A verdade é que o fenômeno da torcida “mista” existe — e não é exclusividade de ninguém. Muita gente tem um time da terra no coração e outro de projeção nacional como simpatia. Em Pernambuco isso até é menos acentuado do que em algumas regiões com futebol local menos desenvolvido. Mas negar que existe? Aí já é exagero.

E tem mais: quem foi ao estádio, seja pernambucano, paraibano, potiguar ou carioca, merece respeito. Torcedor não tem CEP obrigatório. Tem camisa, paixão e vontade de empurrar o time.

O futebol ensina dentro de campo — e fora também. Se alguém quer ser unanimidade, não é apontando o dedo. É jogando bola, conquistando, provando em cada partida. A arquibancada responde ao que vê. O gramado, esse sim, é o território onde os discursos se desfazem, e só a verdade fica de pé.