Jornalista versátil e apaixonado por esportes. Nascido e criado na capital paraibana.

A Copa do Mundo costuma revelar heróis improváveis. Mas, para nós, paraibanos, o que aconteceu diante do Haiti teve um sabor diferente. O Brasil venceu por 3 a 0, encaminhou a classificação para o mata-mata e, pela primeira vez nesta competição, conseguiu transmitir uma sensação de controle. Não foi uma atuação perfeita. Longe disso. Mas foi suficiente para devolver um pouco de tranquilidade a uma Seleção que chegou pressionada após a estreia.
E o principal personagem da noite nasceu aqui.
Matheus Cunha chamou a responsabilidade, marcou dois gols e foi o grande nome da partida.
Em uma equipe que ainda busca identidade, o atacante fez aquilo que o torcedor espera dos jogadores decisivos: apareceu quando mais precisava.
É impossível olhar para essa atuação sem sentir um certo orgulho regional. A Paraíba, que tantas vezes luta por espaço no cenário nacional do futebol, viu um dos seus filhos vestir a camisa da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo e ser o responsável por conduzir o time à vitória. Não é pouca coisa.
E talvez por isso tenha soado tão estranho ouvir críticas direcionadas a outro paraibano desta Seleção.
Nos últimos dias, o ex-atacante Amoroso questionou a escolha de Douglas Santos para representar o grupo em uma entrevista coletiva, alegando que faltaria “alguém com mais identidade” para ocupar aquele espaço.
Respeito a opinião de quem vestiu a camisa da Seleção, mas discordo. Identidade não se mede pelo CEP do jogador, pelo clube em que atua ou pelo tamanho da sua exposição midiática. Identidade se constrói dentro de campo.
Douglas Santos carrega uma trajetória de superação, tem medalha olímpica no currículo, voltou a vestir a amarelinha por mérito e vem sendo titular em uma Copa do Mundo.
Para nós, paraibanos, vê-lo ocupando esse espaço não é motivo de questionamento. É motivo de orgulho.
Mas o resultado não pode esconder alguns problemas.
A escalação escolhida por Carlo Ancelotti voltou a ser alvo de críticas. Houve questionamentos sobre peças utilizadas, funções exercidas e momentos em que o time pareceu desconectado entre defesa e ataque.
Em alguns períodos da partida, o Brasil apresentou duas versões distintas: uma intensa, agressiva e vertical; outra lenta, previsível e vulnerável.
São defeitos que uma seleção candidata ao título precisará corrigir rapidamente.
Por outro lado, também seria injusto ignorar os avanços. O coletivo funcionou melhor. Houve mais movimentação, mais aproximação e uma equipe menos dependente de jogadas individuais.
Talvez essa seja justamente a essência do trabalho de Ancelotti: construir um time capaz de competir acima das individualidades.
Se na estreia faltou alma, contra o Haiti ela apareceu nos momentos certos.
Ainda não sabemos até onde esse Brasil pode chegar. Ainda existem dúvidas. Ainda existem lacunas. Ainda existem críticas justificáveis. Mas a Copa do Mundo também é feita de confiança, de momentos e de personagens.
Talvez o Brasil ainda esteja longe do futebol que sonhamos. Talvez Ancelotti ainda precise encontrar respostas para perguntas que continuam sem solução. Mas, em meio às incertezas, uma certeza permanece: a Paraíba está deixando sua marca nesta Copa do Mundo.

Se ontem Matheus Cunha decidiu o jogo com dois gols, Douglas Santos segue mostrando que também pertence a esse palco. E num país onde tantas vezes o eixo tradicional monopoliza as atenções, ver dois paraibanos ajudando a escrever a história da Seleção é mais do que uma curiosidade estatística.
É representatividade. É pertencimento.
É a prova de que o futebol paraibano também produz jogadores capazes de vestir a camisa mais pesada do planeta.
E isso, independentemente de qualquer crítica, ninguém pode apagar.
