João Trindade é cronista esportivo, com larga experiência. Foi auditor do Tribunal de Justiça Desportiva da Paraíba.
Ao término daquele absurdo de 4 pênaltis desperdiçados numa final de campeonato em nível mundial, na derrota do Flamengo para o PSG, pensei logo numa pessoa: José Lins do Rêgo. Ele era apaixonado pelo Flamengo. Poucos sabem, mas Zé Lins era, também, cronista esportivo; escreveu, de 1946 a 1957, mais de 1.000 crônicas para a coluna “Esporte e Vida”no Jornal dos Sports, do amigo dele Mário Filho (que dá nome ao Maracanã).
Graciliano Ramos, que não gostava de futebol, não se conformava com esse amor de Zé Lins por esse esporte.
Certa vez, o autor de Banguê recebeu em casa Graciliano Ramos, que, recém-saído da prisão, ficou com ele por uma temporada. Graciliano lembra que Zé Lins trabalhava nos escritos, dia após dia, mas no final da tarde saía, impreterivelmente. O mestre das Alagoas não se aguentou e, curioso, perguntou:- Aonde você vai?
– Vou assistir ao treino do Flamengo, disse o grande romancista paraibano.
Com a camisa do flamengo ele entrava em transe, sentia aquela “energia” que todo torcedor de verdade sente.
Assim descreveu sua paixão pelo Flamengo:
“Tenho o Flamengo no sangue e desde que me chamem para seu serviço, não sou mais que um escravo. Admirável paixão que nos arrasta aos entusiasmos mais extremos e a tristezas profundas, mas paixão que nos ajuda a viver, que nos congrega em torcidas que não temem a chuva e o sol, que se propõe aos nossos interesses particulares, para ser (…) um simples homem de arquibancada disposto a tudo. Sou grato ao Flamengo e por ele darei tudo que puder”.

Quando conheceu o Rio de Janeiro, entregou-se à sua maior paixão: o Flamengo. Tornou-se sócio contribuinte e chegou a ser Secretário-geral do clube. Inclusive, quando eleito para a Academia Brasileira de Letras, o jantar de comemoração foi oferecido pelo Flamengo e aconteceu na sede do clube.
Zé Lins foi, sem dúvida, o maior exemplo de intelectual que estabeleceu a ligação entre a literatura brasileira e o futebol. Ninguém escreveu melhor do que ele sobre tal esporte.
Ao falar sobre suas crônicas esportivas, Zé Lins dizia que procurava ser imparcial, o máximo possível. Acontece queisso não correspondia à realidade. Quando se referia aos adversários dos times que perdiam para o Flamengo,destacava a necessidade de chorar:
“Chorar, choram os judeus, no muro das lamentações, há dois mil anos, e as lágrimas compridas dos filhos de Jeovah nunca secaram em seus olhos. E nem pelo choro foram queimadas, podem chorar e fazem muito bem, porque o choro alivia as dores, todas as dores, as da cabeça e as dores do cotovelo”(…)
“Que chorem e chorem muito, que as lágrimas rolem como no samba, que as lágrimas desçam da face abaixo, como torrente….Chorem muito, chorem demais, chorem como um bezerro desmamado, Mas chorem, meus amigos, que o pranto é livre.”
Pois é, Zé Lins… O choro, dessa vez, foi nosso!